Publicidade médica e imagem de pacientes

Antes e depois no Instagram médico: o que o CFM permite?

A publicação deixou de ser uma proibição absoluta, mas não virou uma comparação promocional livre. O CFM exige finalidade educativa, um conjunto completo de casos, imagens reais, anonimato e informação sobre limites e complicações.

Ilustração abstrata com quatro cartões, revisão e proteção para representar a checagem de conteúdo médico
O formato permitido pelo CFM é uma apresentação educativa em quatro etapas — não uma promessa visual de transformação.

Resposta direta: o médico pode publicar antes e depois no Instagram, mas somente dentro de uma apresentação educativa que cumpra a Resolução CFM nº 2.336/2023 e o Manual de Publicidade Médica. O Manual afirma expressamente que resultados ou comparações de antes e depois não podem ser publicados de forma isolada.

Em 14 de setembro de 2026, o próprio relator da resolução voltou a explicar, em evento oficial do CFM, que o antes e depois é permitido em caráter educativo e que o Manual deve servir de referência para médicos e órgãos julgadores. Portanto, a resposta correta não é simplesmente “pode” ou “não pode”: depende da estrutura, da origem das imagens, do consentimento, do anonimato e da maneira como o resultado é apresentado.

Regra central: uma foto de resultado satisfatório ao lado da foto inicial, acompanhada de convite comercial, não basta. A peça precisa mostrar contexto, pluralidade de resultados e riscos, sem sugerir que aquele desfecho é garantido.

A permissão não é um passe livre para propaganda de resultado

O artigo 14 da Resolução permite o uso de imagens de pacientes e a demonstração de resultados de técnicas e procedimentos com finalidade educativa. Ao mesmo tempo, o artigo 11 proíbe garantir, prometer ou insinuar bons resultados e também veda representações visuais abusivas, enganosas ou sedutoras que induzam percepção de garantia.

Essas duas partes precisam ser lidas juntas. Mostrar resultado é possível; selecionar apenas um caso excepcional, retirar o contexto e transformar a imagem em prova de superioridade continua incompatível com a norma. O conteúdo também deve estar relacionado à especialidade ou área de atuação registrada do médico quando isso for exigido pelo tema apresentado.

As quatro etapas obrigatórias do antes e depois

O capítulo XII do Manual transforma a regra geral em um roteiro objetivo. A peça deve conter quatro etapas:

  1. Apresentar a enfermidade ou a queixa estética. É necessário explicar o problema, possíveis consequências e por que a avaliação médica é importante. Essa etapa pode usar texto, vídeo ou banco de imagem.
  2. Mostrar a situação antes do tratamento. Devem ser usadas fotos ou vídeos reais de pelo menos quatro pacientes diferentes.
  3. Mostrar possíveis resultados após a intervenção. Também com fotos ou vídeos reais de pelo menos quatro pacientes diferentes e, quando possível, com diferentes biotipos e faixas etárias.
  4. Descrever resultados insatisfatórios e complicações. Essa informação pode aparecer em texto, ilustração ou fotografia e deve deixar claro que a resposta varia.

A Resolução ainda orienta, quando aplicável, a apresentar evoluções imediatas, mediatas e tardias. Isso evita a impressão de que a imagem de um único momento representa o resultado definitivo e ajuda a comunicar que recuperação, manutenção e resposta biológica mudam ao longo do tempo.

Exemplo de estrutura possível: um carrossel começa explicando a indicação e os fatores que interferem no resultado; apresenta os registros reais de quatro pacientes antes; mostra os respectivos resultados em condições comparáveis; e encerra com limites, possíveis insatisfações e complicações descritas na literatura.

Por que o Manual exige ao menos quatro pacientes

A comparação de um único caso favorece a ideia de resultado previsível. O conjunto de pelo menos quatro pacientes reduz essa simplificação e aproxima a comunicação da variabilidade da medicina. Mesmo assim, quantidade não substitui contexto: a legenda ou narração precisa informar indicações terapêuticas, fatores que influenciam os resultados e complicações descritas na literatura científica.

Os itens de “antes” e “depois” devem ser fotos ou vídeos reais. Já a apresentação do problema e a descrição de insucessos e complicações podem usar ilustrações, imagens de terceiros ou referências da literatura, desde que direitos autorais e proteção de dados sejam respeitados. Se uma imagem de banco for utilizada, a origem precisa ser citada.

Autorização do paciente não elimina o dever de anonimato

Quando as imagens pertencem ao arquivo do médico ou do serviço, a Resolução exige autorização do paciente, respeito ao pudor e à privacidade e garantia de anonimato. Esse anonimato continua obrigatório mesmo que o paciente tenha autorizado a divulgação.

O Manual acrescenta que a autorização pode ser retirada a qualquer momento e que o médico não pode oferecer dinheiro, desconto ou outra vantagem para obter a cessão da imagem. A norma não define no artigo 14 um modelo único de autorização. Como medida de prova e governança, é prudente que ela seja específica, documentada e vinculada às imagens, aos canais e às finalidades realmente aprovadas.

Na prática, retirar nome e foto de perfil não basta. Rosto, tatuagem, voz, prontuário visível, data, localização, condição rara ou combinação de detalhes podem permitir identificação. Tarjas e recortes podem ajudar, mas a publicação precisa ser avaliada como um todo. O Manual também determina que não sejam usadas imagens de mamas femininas, região glútea ou íntima, em proteção ao pudor e à privacidade.

O que pode e o que não pode ser editado nas imagens

A Resolução usa uma formulação ampla ao vedar edição, manipulação ou melhoramento. O Manual explica como aplicar essa regra: softwares de imagem não podem ser usados para distorcer o resultado retratado, mas podem servir para recortar, adequar luz e nitidez ou adicionar tarjas destinadas a preservar identidade ou pudor, desde que a edição não mude a percepção do resultado.

Ajuste compatível

Recorte, correção de luz e nitidez e tarja de anonimização, sem alterar volume, contorno, textura, cor clínica ou proporção.

Manipulação incompatível

Filtro de pele, remoção de marcas, remodelação corporal, mudança de cor ou contraste seletivo e qualquer retoque que favoreça o “depois”.

Padronização prudente

Mesmo enquadramento, distância, iluminação, fundo e expressão ajudam a comparar sem criar vantagem visual artificial.

A terceira coluna é uma recomendação operacional, não uma frase literal do artigo 14. Ela decorre do dever de não distorcer o resultado: se o “antes” é fotografado com luz dura e o “depois” com luz favorável, a comparação pode induzir uma diferença que não pertence apenas ao procedimento.

Carrossel, reels, vídeo, stories e anúncios

O Manual admite compilar as imagens em vídeo ou em um website para o qual as redes sociais direcionem. Em vídeo, todos os quadros devem ter o mesmo tempo de exposição, com pelo menos dois segundos por card. Um carrossel também pode organizar as quatro etapas, desde que o conjunto não esconda riscos e complicações em uma parte desconectada ou inacessível.

Stories e outros conteúdos temporários estão expressamente sujeitos às mesmas regras da Resolução. Isso significa que a duração de 24 horas não reduz as exigências. Como leitura prática, dividir as etapas em publicações soltas, que podem ser vistas fora de ordem ou expirar em momentos diferentes, cria um risco evitável; é mais seguro manter a sequência completa em uma única narrativa e, quando necessário, direcionar para uma página onde o conjunto esteja íntegro.

A Resolução também reconhece o direito de comprar espaço publicitário. Logo, anúncio ou conteúdo impulsionado não é proibido apenas por ser pago. Mas o pagamento não transforma uma comparação isolada em conteúdo regular: finalidade educativa, quatro etapas, pluralidade de casos, anonimato e ausência de promessa continuam aplicáveis.

A identificação pode ficar na bio?

Sim. Em redes sociais próprias, o Manual de Publicidade Médica orienta que nome, palavra MÉDICO, número ou números de registro nos CRMs onde o profissional atua e RQE, quando aplicável, fiquem na página principal ou bio. Não é necessário repetir CRM e RQE em cada peça publicada dentro daquele perfil.

Se a peça circular em outro perfil ou em aplicativos como WhatsApp e Telegram, o Manual determina que os dados obrigatórios sejam incluídos na própria publicação. A regra vale para antes e depois da mesma forma que para qualquer outra publicidade médica.

O que costuma tornar a publicação inadequada

  • Publicar apenas um caso ou apenas a comparação visual de resultado.
  • Mostrar somente resultados satisfatórios e omitir insucessos e complicações.
  • Usar menos de quatro pacientes reais nas etapas de antes e de depois.
  • Deixar de explicar indicação, variáveis e riscos descritos na literatura.
  • Identificar o paciente, ainda que ele tenha autorizado a postagem.
  • Oferecer desconto ou vantagem em troca da autorização de imagem.
  • Aplicar filtros, retoques ou diferenças de luz que distorçam o resultado.
  • Usar linguagem de garantia, superioridade ou transformação certa.
  • Repostar o antes e depois do paciente como se a responsabilidade fosse dele.
  • Mostrar ou ensinar publicamente técnica que deve ficar restrita ao ambiente médico.

Repostar não transfere responsabilidade. Pela Resolução, publicações de terceiros ou pacientes compartilhadas pelo médico em suas redes passam a ser consideradas publicações do próprio profissional para fins de aplicação das regras.

Checklist antes de publicar

  • A finalidade é realmente educativa, e não uma comparação promocional isolada?
  • As quatro etapas estão completas e compreensíveis no mesmo conjunto?
  • Há imagens reais de pelo menos quatro pacientes antes e depois?
  • Indicações, fatores que alteram a resposta e complicações estão descritos?
  • Autorização, origem e direitos de uso de cada imagem estão documentados?
  • Anonimato, pudor, privacidade e LGPD foram verificados?
  • Os ajustes visuais preservam fielmente o resultado?
  • O texto evita garantia, promessa, sensacionalismo e superioridade?
  • A identificação profissional está correta na bio ou na peça compartilhável?
  • Em caso de dúvida concreta, a Codame do CRM foi consultada antes da publicação?

Como o 123Postei! trata esse formato

O 123Postei! não gera nem simula imagens de antes e depois. O Manual exige fotos ou vídeos reais de pacientes nas etapas centrais, e o formato demanda consentimento, anonimização, contexto clínico e conferência individual que não cabem em uma geração automática genérica.

Uma imagem produzida por inteligência artificial pode ilustrar conceitos educativos, desde que não seja apresentada como paciente ou resultado real. Ela não substitui os registros reais exigidos para a demonstração de antes e depois. Para outros usos de IA na comunicação, veja também nosso guia sobre a Resolução CFM nº 2.454/2026 e o checklist de revisão de conteúdo médico feito com IA.

Perguntas frequentes

O médico pode publicar antes e depois no Instagram?

Sim, desde que a apresentação tenha finalidade educativa e cumpra a Resolução nº 2.336/2023 e o Manual. Uma comparação isolada de resultado não é permitida.

Quantos pacientes precisam aparecer?

O Manual exige imagens reais de pelo menos quatro pacientes diferentes nas etapas de antes e de depois, além da apresentação do problema e dos possíveis insucessos e complicações.

A autorização permite identificar o paciente?

Não. Autorização, anonimato, pudor e privacidade são exigências cumulativas. A identidade deve ser preservada mesmo com consentimento.

É permitido ajustar luz, nitidez ou usar tarja?

Sim, desde que o ajuste não distorça o resultado. O Manual permite recorte, adequação de luz e nitidez e tarjas destinadas a preservar identidade ou pudor.

A regra vale para stories, reels e anúncios?

Sim. Conteúdo temporário segue as mesmas regras; vídeos são admitidos pelo Manual; e a compra de espaço publicitário não dispensa nenhuma exigência do conteúdo.

Uma simulação de IA pode ser usada como resultado?

Não no antes e depois descrito pelo Manual, que exige registros reais de pacientes nas etapas centrais. O 123Postei! não gera nem simula antes e depois.

Fontes primárias consultadas

Este conteúdo é informativo, foi conferido nas fontes oficiais indicadas e não substitui orientação do CFM ou CRM, avaliação da Codame, assessoria jurídica nem análise do caso concreto.

Conteúdo médico com revisão humana

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Veja três exemplos fixos — imagem e legenda — já utilizados anteriormente. Eles não são peças de antes e depois, não são personalizados e não são gerados ao vivo.

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